Ela já tinha 20 anos e iria se casar.
Nunca vira a luz do sol, seu marido concordava em cuidar dela e garantir sua proteção, sua doença era rara, mas não inédita, não podia ser exposta a luz forte e a luz do sol poderia matá-la. Assim como bons mulçumanos, seus pais adaptaram os horarios das preces para ela, assim ela rezava ao por-do-sol, após o jantar, à meia noite, às 4 da manhã e antes de dormir, pelas 6 da manhã, isso era tudo que conhecia.
Tinha uma voz forte, feminina, mas forte como um trovão, inadequada às canções locais, mas com ela gostava de imitar os sons noturnos e os poucos pássaros que sibilavam durante a noite, gostava também de escutar o caos sonoro dos pássaros que despertavam pela manhã, um som encantador, mas que também significava perigo, não queria voltar ao hospital por não estar protegida do amanhecer.
Mas agora iria se casar e foi-lhe informada que seu marido apreciava muito mais a dança que a música. Ela sabia dançar, um pouco, mas isto não lhe agradava muito, acreditava que essa era uma tarefa mais apropriada às mulheres que viviam durante o dia.
Mas enfim ela iria se casar como mandava a tradição, deixar de ser propriedade do pai para o ser do marido. Por algum motivo isso a irritava, mas não era sua função indagar as tradições. Ela sabia que fora daquele oásis havia um mundo, um mundo com tecnologias diversas que eram muitas vezes negadas pelas pessoas locais que temiam serem contaminadas pelo imperialismo americano.
Durante a cerimonia, seu coração palpitou em uma emoção única, algo tão avassalador que não poderia ser controlado, naquele dia, encontrou o homem de olhos brilhantes, um amigo de seu noivo, que, de acordo com ele, também possuia a mesma doença que ela, o que em sua mente só poderia ser obra do destino.
Mas ela estava se casando, e sabia que amava, e que amava o outro, e que ele partilhava de seu amor, pelos poucos olhares e frios toques que a proporcionara, por cortesia. Seu real noivo era um exemplo de mulçumano, até mesmo um pouco exagerado, poderoso, seguidor firme das tradições, tomou-a como dele prontamente e a levou para longe, onde ficava sua casa, que nada mais era que um verdadeiro palácio construído nos moldes antigos, alimentado pelo óleo abundante em suas terras.
Mas o tempo foi passando e sua vida foi ficando mais triste, e quando seu marido a tomava ela queria que fosse o homem dos olhos brilhantes, e só pensava nele, e só queria ele. E suas visitas, quase que atraídas pelo pensamento dela, tornavam-se cada vez mais frequentes.
até que uma noite, enquanto ela cantava o pio das corujas seus olhares se encontraram e ambos sabiam que o desejo não poderia ser contido por mais tempo, então fugiram, despertando a fúria da familia dela, e a fúria de seu marido poderoso....
continua no proximo capítulo
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