terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Princess Zatha – prelúdio

Isto se diz sobre o início de nossa sociedade, antes do inicio do calendário vigente.

Toda a humanidade se uniu sob o julgo de um poder único, a nossa monarquia.

Os membros da família real eram realmente formidáveis, todos possuíam uma capacidade intelectual fascinante de forma que em cada geração sempre existiam um, dois ou mais gênios dos quais era escolhido o mais especial pelo rei vigente para ser o sucessor quando o antigo rei não estivesse em plenas faculdades mentais.

As classes superiores, os mais próximos da família real, eram os cientistas e os militares, dando ênfase aos cientistas militares, esses últimos, os mais gloriosos, constituíam o conselho real e eram os únicos que, a partir do voto poderiam depor um rei eleito e escolher dentre outro membro da família real o novo rei. Embora isso raramente tenha acontecido, era necessária votação unânime contra o rei para que ele fosse deposto.

Enfim, a humanidade floresceu intelectual e tecnologicamente sob o governo da capital, com poucas crises monárquicas, até a chamada expansão espacial.

Era o final do reinado do rei Primus III, então com 82 anos, e os desvios espaciais e alterações atmosféricas tornaram possíveis que dois outros planetas, além do que agora é conhecido como Planeta Capital, pudessem ser colonizados pela espécie humana.

Havia um problema na sucessão real, já que o príncipe eleito, Christian VI, então com 5 anos, não se manifestava interessado em ser o novo rei.

Houve uma imigração maciça de pessoas para o primeiro planeta colonizado, hoje chamado de Planeta Trítil, incentivada pelo governo, pois este se interessava em diminuir a superlotação humana no planeta.

Acontece que ali havia um fator mutagênico, um gás que, ao respirado, provocava profundas modificações nos seres humanos, fator esse que não foi imediatamente verificado pelos representantes reais, pois havia um déficit no sistema de comunicação, as ondas de rádio e outras eletromagnéticas não atravessavam os desvios espaciais e a informação demorava um tempo excessivamente longo para ir de um planeta a outro.

Os seres humanos que ali viviam começavam a mutar com características físicas e fisiológicas semelhantes às de animais e foram chamados de metamorfos, pois era como se houvessem passado por uma metamorfose, já que preservaram todas as características mentais originais.

Quando o fator mutagênico foi reconhecido e isolado, praticamente não existia mais, havia sido totalmente “consumido” pelos seres humanos que para ali se mudaram.

Começou-se então, a colonização do segundo planeta, mais tímida e lenta, pois a população temia que ali houvesse um segundo fator mutagênico, o que provou-se verdade, mas este agiu por pouco tempo e foi rapidamente isolado e retirado da atmosfera.

Os que mutaram no segundo planeta foram chamados apenas de mutantes, pois não havia nenhum padrão de mutação entre eles, sendo cada mutante único e impassível de classificação.

Em meio aos problemas imigratórios e de adaptação dos planetas o Rei Primus III, já então com 87 anos, ainda tinha de enfrentar a rebeldia do príncipe eleito, que à época já era conhecido como príncipe rebelde.

Príncipe esse que fugira, com 10 anos e ficou desaparecido por dois anos até que foi encontrado no segundo planeta, conhecido hoje como Planeta Mitril, completamente mutado. Christian havia fugido em uma das primeiras naves de colonização e se escondera em cavernas nas Montanhas Altas, onde ainda havia grande concentração do fator mutagênico. O príncipe rebelde se tornara também um príncipe mutante.

O reinado de Primus III durou mais 7 anos, onde a emigração do Planeta Capital prevaleceu.

Christian VI assumiu a contragosto, se depondo do cargo uma semana após alegando que a mutação havia afetado o seu cérebro de forma que ele não estava em plenas faculdades mentais.

Em seu lugar Christian elegeu sua prima Zariel, que com 18 anos acabara de se tornar PH.D em Ciências Políticas e por isso fora aceita pelo conselho.

Zariel seguira a ordem emigratória estabelecida pelo rei antecessor, mas, além disso, se importava muito com os mutantes e metamorfos, fazendo o possível para ajudá-los à reintegração na sociedade.

Isso e a melhoria significativa da política em relação à saúde, (sendo a rainha a idealizadora e fundadora da primeira faculdade de metamedicina), contribuíram para fazer da Rainha Zariel uma governante extremamente popular, mesmo nos outros planetas que começavam a se distanciar muito do Planeta Capital por conta do déficit de comunicação.

Zariel, com 23 anos, casou-se com seu primo em terceiro grau Natan, que não era bem visto pela população por ser o único membro da família real a não ter um curso superior e a não demonstrar talentos inumanos em alguma área. Casado com Zariel, Natan se tornou o Rei Natan II, embora todo poder político residia praticamente nas mãos de sua esposa.

A Rainha Zariel, percebeu que o déficit de comunicação era o problema mais sério a ser resolvido por ela e convocou toda cúpula dos cientistas com o objetivo de tentar resolver isso.

Com toda a cúpula reunida e mais a ajuda da rainha, (não se sabe ao certo o quão importante foi a contribuição dela), os cientistas descobriram que o pensamento, embora ativado por impulsos elétricos, era constituído de uma energia estranha que poderia viajar mais rápida que a luz, de forma que ele poderia ser utilizado como um sistema de comunicação em tempo real entre os três planetas. Assim o projeto do que hoje conhecemos como neuro-net começou a ser feito.

Esse sistema era tão perfeito que só necessitava de um único servidor que foi instalado no Palácio Real do Planeta Capital, e que podia ser parcialmente acessado por computadores ou completamente por conexão neural, conexão feita por um neuro-chip instalado diretamente ao cérebro do usuário e que necessitava de uma câmara de contenção ligada à rede.

A humanidade se viu tão fascinada pelo sistema neural, tão envolvida com essa nova tecnologia que decidiu-se zerar o calendário e se iniciou uma nova era, a partir daquele ano se firmava o ano 1.

Após a construção e instalação de câmaras de contenção onde quer que houvesse alguma população humana, a Rainha Zariel, com 35 anos, retirou-se deliberadamente do poder, alegando que já havia contribuído com a humanidade em tudo que estava em seu poder e deixou em seu lugar, seu marido, o rei Natan II.

O reinado de Natan II foi extremamente curto, marcado por divergências entre ele e os cientistas militares que não lhe tinham em grande credibilidade, mas onde houve um crescimento geral propiciado principalmente pela revolução neural e pelas medidas tomadas pela rainha.

Após dois anos de crescimento constante e divergências entre o poder, o rei toma a decisão que tornaria sua impopularidade entre os cientistas geral entre toda a população. Em um momento que só poderia ser de loucura, o rei desliga o servidor central da neuro-net e se tranca no palácio central.

Imediatamente surge um descontentamento geral entre a população, principalmente a que vivia nos planetas fora da capital, mas fora uma revolução no Planeta Capital liderada por Walter Sputnik, um cientista isolado da comunidade que se unira ao povo, que tomou o poder das mãos do rei a partir da força, essa revolução durou dois anos.

Sputnik reestruturou todas as bases políticas vigentes por eras, destituiu o conselho, retirou os direitos políticos dos cientistas, desmembrou a guarda real e tomou o palácio. Walter se proclamou o Imperador e a partir daquele momento nenhum outro nome deveria lhe ser dado.

O Imperador religou a neuro-net no dia exato que o rei tentara fugir de um aposento extremamente bem protegido do palácio tomado, onde fora assassinado.

O Imperador autorizara a fabricação imediata de frotas de robôs de patrulha e robôs de contenção que foram mandados para detectar e prender qualquer um que não o apoiasse e iniciou a busca e execução sumária de todo membro, oficial ou não, da família real.

O Império havia se erguido pela força das armas e se manteve no poder pela opressão. Se passaram 40 anos desde a revolução neural e o Imperador apenas conquista mais poder, hoje nossa sociedade está dividida em três R’s, que indicam claramente nossas relações sociais:

Rebeldes: São as pessoas, de maioria humana comum, antes pertencentes à classe dos cientistas ou militares e que defendem a queda do império e a volta da monarquia alegando que a lendária Rainha Zariel escapara da caçada imperial, e que ela, ou algum de seus descendentes teria de ser, por direito, o novo ou a nova rainha, são os mais bem organizados e menos numerosos “braços” da resistência.

Revolucionários: Pessoas cujo o número não é exato e que se imagina que tenha maioria de metamorfos e mutantes embora a quantidade de humanos normais também seja significativa. São os representantes do povo, contando também com aqueles que apoiaram o império e se arrependeram, além de criminosos. Defendem a queda do império, mas não se decidiram sobre o que fazer com o poder após, e por isso apenas se concentram em tentar derrubar o império e a sobreviver; a sucessão do poder só deverá ser decidida assim que o império cair, mas não se mostram interessados em uma segunda monarquia apoiada em personagens lendários que todos sabiam estar mortos. Possuem menor poder aquisitivo e moram em colônias espalhadas pelos três planetas, são bem mais numerosos que os rebeldes, porém são menos organizados.

Resignados: São todos aqueles que não lutam contra ou apóiam o império, resignando-se aos seus mandatos e leis. São os mais numerosos de todos os grupos sociais.

Hoje o imperador nos rege com mãos de ferro, trabalhamos 12 horas por dia, nossos salários são apenas o mínimo necessário para subsistência, praticamente todas as empresas e indústrias são estatais e seguem as regras críticas do governo. Os robôs de patrulha estão em toda parte, são olhos e ouvidos do imperador, não existe liberdade de expressão, tudo é tratado como funcional e dispensável. Mesmo os cientistas, tão poderosos nos tempos reais são descartados após cumprirem suas pesquisas. Shows, jogos, comícios, e tudo que pudesse unir uma grande quantidade de pessoas foram proibidos. Apenas na neuro-net se é possível praticamente ter algum contato social. O Imperador separou fisicamente as famílias, ao executar a divisão equitativa, onde dividiu igualmente a população dos planetas, destruiu cidades que estavam em locais férteis para utilizar a terra para produção agrícola, enfim, manipulou tudo e todos sem se importar, como se todos fossem seus brinquedos, e aqueles que lhe dirigiam contra abertamente eram sumariamente presos ou assassinados.

Semana passada foi anunciado em todas as televisões e todos os terminais neurais que cientistas fiéis ao governo haviam conseguido desenvolver uma tecnologia única, que permitiria a uma pessoa se tornar praticamente imortal, e que o Imperador já estava se utilizando dela. A que tudo indica o império não vai acabar tão cedo.